Toda essa vida abundante podemos contemplar na natureza se dermos espaço para o silêncio e para a reflexão.
Natureza da Gente
Muitas vezes saímos das nossas cidades para fugir do barulho, mas não conseguimos deixar o barulho para traz: levamos esse ruído para a natureza, junto conosco.
Nós temos muita dificuldade de enfrentar o silêncio, de dar espaço para escutar a Deus e a nós mesmos.
Na natureza, o silêncio que encontramos são como verdadeiras mensagens para nossa vida que às vezes nem percebemos, por não conseguirmos nos calar.
Queremos ir para a natureza para fugir da agitação, da correria, da rotina, mas, quando nos deparamos com o silêncio, com a tranquilidade, logo procuramos um modo de fazer barulho de novo: ligamos caixinha de som, começamos a falar, a conversar sem parar…
Passamos, às vezes, um fim de semana inteiro num lugar lindo, rodeado pela natureza, mas sem parar as músicas e calar a boca por nem por um minuto.
Ou seja, só mudamos o barulho de lugar – esse barulho imenso que existe dentro de nós.
Por isso, quantas vezes reservamos uns dias para descansar em um sítio, uma cachoeira, uma praia, e, sim, nos divertimos, aproveitamos bastante, mas voltamos cansados e vazios para a rotina.
A gente vai para a natureza, nadamos, tiramos muitas fotos, fazemos churrasco com os amigos… momentos bons e de qualidade, mas não desfrutamos, por nem um instante, do silêncio; não damos espaço para a contemplação da vida que pulsa diante de nós.
Estamos em um lugar de silêncio, de reflexão, mas permanecemos o tempo todo distraídos, barulhentos e agitados.
Precisamos refletir em algo que às vezes não paramos ainda para pensar: Quando vamos para natureza precisamos tirar nossos calçados e pisar no chão.
E isso tem sentido tanto literal quanto simbólico:
Literal porque se começamos a buscar esse contato com a natureza, precisamos nos deixar tocar de verdade: andar descalço, um pouco, para sentir o mato, a terra nos pés; molhar ao menos nosso rosto com a água corrente… buscar essa conexão de nosso corpo com a energia da natureza que é tão revigorante.
E o sentido simbólico – de tirar nossos calçados e pisar no chão – quer dizer que precisamos de mais humildade, de nos despojar desse nosso espírito de dominadores, do orgulho de achar que somos os donos da natureza.
Quando a gente vai para uma cachoeira, uma praia, um parque, uma reserva natural, estamos entrando em um espaço que já tem donos: existe ali muita vida antes da gente chegar.
Esses ambientes já são amplamente habitados por aves, répteis, mamíferos, águas e plantas.
Todos esses habitantes compartilham o direito de existir neste espaço e nós somos apenas visitantes entrando na casa de outras vidas.
Por isso é que precisamos tirar os sapatos da nossa arrogância, da nossa exploração, da nossa ganância e egoísmo… e colocar nossos pés descalços na terra, reconhecendo e respeitando outras vidas.
Esses momentos na natureza são um favor de Deus para nós, um presente, uma oportunidade.
E, muitas vezes, chagamos lá, entrando, animados, com nossas caixinhas de som, nos achando no direito de perturbar a paz da natureza e das outras pessoas que procuram o silêncio…
Chegamos levando lixo, deixando lixo, levando barulho, quebrando o silêncio e desalinhando a harmonia e a melodia do ambiente…
Como se fossemos donos, não visitas… sem tirar os calçados, sem pedir licença…
Claro, sabemos que a natureza não deve ser romantizada. Às vezes os animais, por exemplo, parecem cruéis, quando se matam e se devoram por sobrevivência.
Mas se pensarmos melhor, nós, humanos, somos os mais destrutivos e desrespeitosos dessa interação, porque nós somos dotados de capacidade e de oportunidade de escolher e, muitas vezes, nós escolhemos ser conscientemente cruéis com outras vidas, nos devorando uns aos outros, e não por sobrevivência, mas por ganância, por preconceitos, por egoísmo.
A natureza é como uma escola, é como uma mestra para nós.
É um triste desperdício de tempo e de dinheiro quando vamos para a natureza e não damos espaço para o aprendizado, para a contemplação.
E basta apenas parar um pouco para contemplar:
Contemplar a organização e as grandes obras das pequenas formigas e refletir, através delas, como precisamos uns dos outros para transformações do mundo; como nossa pequena força pode contribuir com o todo para as coisas acontecerem.
Contemplar também a força silenciosa do vento que, sem ser visto, muda tudo de lugar. Às vezes é um vento suave, mas às vezes ele é avassalador, movendo o que insistia em ficar estagnado. Assim como nós que, muitas vezes, precisamos de uma força, de um vento que nos empurre para sair do lugar, pois ficamos prostrados pelo medo, pelo comodismo, pela tristeza… precisamos do sopro da vida, do Espírito de Deus, nos empurrando de novo para a vida, para o movimento.
Contemplar as águas que sustentam a vida das criaturas, que desenham e transformam paisagens e abrem caminhos entre rochas, montanhas e planícies; e refletir como nós também precisamos encontrar caminhos entre as mais diversas situações para conseguirmos sempre prosseguir em nosso caminho, sem parar; mesmo nas adversidades, seguir nosso fluxo, nem que seja passando por frestas apertadas e realidades áridas.
Contemplar os diversos animais, tão diferentes e tão importantes para o ciclo da vida, alguns nas águas, outros na terra, outros voando, com características e adaptações únicas para se manterem vivos e perpetuarem suas espécies; e refletir que nós também precisamos buscar as adaptações necessárias para viver sempre mais e melhor.
Contemplar as plantas em suas variedades de cores, frutos e flores, que dão beleza, sombra e alimento; e refletir que também cada um de nós tem uma beleza própria e única, todos participamos do jardim do mundo, temos nosso lugar, nosso perfume, nossa luz.
Toda essa vida abundante podemos contemplar na natureza se dermos espaço para o silêncio e para a reflexão.
Precisamos realmente crescer em humildade e entender que a natureza não é nossa. Ela também é nossa, ela também somos nós, mas a natureza não é só da vida humana.
Precisamos respeitar e nos integrar às outras vidas, buscando harmonia, não dominação.
Só vamos conseguir nos conectar de verdade com toda a criação de Deus quando despertarmos do nosso orgulho, entendermos nosso lugar e nos dispormos a enxergar e a respeitar de verdade toda forma de vida.
E todos ganhamos com esse respeito, porque se despertarmos para a contemplação da natureza, estando nela com outra postura, com outro olhar, vamos perceber a beleza e a vida que pulsam ao nosso redor.
E, mais ainda: vamos perceber a vida e a beleza que pulsam dentro de nós.
Vamos perceber algo ainda mais maravilhoso: Assim como a natureza, nós podemos renascer, nos regenerar, nos adaptar, podemos crescer, ser resilientes e gerar vida.
A partir de agora, acolha esse convite: quando tiver a oportunidade de se retirar, de estar diante da criação de Deus, lembre-se de estar visitando a casa de alguém, uma área habitada por outras vidas:
Entre respeitosamente, assim quando visitamos alguém, e peça licença, tire humildemente seus calçados. Escute as vozes, as melodias, os aprendizados, o silêncio.
Perceba a beleza e a vida pulsante. Sinta o vento, molhe os pés e o rosto nas águas correntes… pois tudo isso é um presente de Deus, uma partilha que nos transforma em pessoas melhores.
Não podemos sair desse dia, desse tempo na natureza, da mesma forma que chegamos: precisamos sair dessa interação como pessoas mais humildes, mais livres, mais leves, mais simples, mais respeitosas, mais humanas.
Até a próxima, gente! Eu desejo que a natureza seja, pra todos nós, um verdadeiro retiro de encontro com Deus e com nós mesmos.
Assim como a natureza, nós podemos renascer, nos regenerar, nos adaptar, podemos crescer, ser resilientes e gerar vida.
Muito obrigada pela presença e pela partilha desta reflexão!
Patrícia Natália – Natureza da Gente