Quando vamos para a natureza precisamos tirar nossos calçados e pisar no chão.
Natureza da Gente
Por que saímos do barulho das nossas cidades, mas levamos o barulho conosco para o silêncio da natureza?
Que dificuldade é essa que temos de enfrentar o silêncio?
Que dificuldade é essa de dar espaço para escutar a nós mesmos e a Deus?
Esse silêncio, esses sons que encontramos na natureza são como hinos, verdadeiras melodias de vida, de movimento, que às vezes desperdiçamos por não conseguirmos nos calar.
Queremos ir para a natureza para fugir da agitação, da correria e do barulho de nossas cidades e de nossas vidas, mas, quando nos deparamos com o silêncio, com a tranquilidade, logo arrumamos um modo de fazer barulho, seja por longas conversas, seja por músicas o tempo todo.
Só mudamos de lugar esse barulho imenso que existe dentro de nós.
Por isso tantas vezes tiramos uns dias para descansar em um sítio, uma cachoeira, uma praia, e, sim, nos divertimos, mas voltamos cansados e vazios para a rotina.
Estivemos na natureza, nadamos, tiramos fotos, nos divertimos, reunimos amigos, coisas ricas e importantes, mas não desfrutamos, por nem um momento, do silêncio revigorante, da vida que pulsa diante de nós enquanto permanecemos distraídos, barulhentos e agitados.
Quando vamos para a natureza precisamos tirar nossos calçados e pisar no chão. Isso tem o sentido literal e simbólico:
Literal, pois precisamos que nossa pele sinta a terra, o mato, a água, para que, de fato, nosso corpo se conecte e receba essa energia da vida;
E o sentido simbólico de tirar nossos calçados e pisar no chão quer dizer que precisamos nos despojar do espírito de dominadores, do orgulho de nos sentirmos donos da natureza.
Quando vamos para a natureza estamos entrando em um espaço que já tem donos: tem muita vida ali. Esses espaços já são habitados por aves, répteis, mamíferos, águas e plantas.
Toda essa vida pulsante compartilha o direito de existir neste espaço. Somos visitantes entrando em uma casa amplamente habitada.
Por isso precisamos retirar os sapatos da arrogância, da exploração, do orgulho humano, da ganância, do egoísmo e colocar os pés descalços na terra, reconhecendo que estamos entrando na casa de outros – de outras vidas.
Nossa presença é um favor para nós, um presente, uma oportunidade.
Como podemos nos achar no direito de perturbar a paz da natureza?
Como podemos poluir com nosso lixo, nosso barulho, quebrar o silêncio e desalinhar a harmonia e a melodia da vida?
Como podemos nos julgar no direito de nos comportar com tanto orgulho na casa dos outros, como se fossemos donos?
A natureza não é para ser romantizada. Sabemos que às vezes ela pode nos parecer cruel, com animais que lutam e devoram por sobrevivência.
Mas, nós humanos, somos os mais destrutivos e mais desrespeitosos dessa cadeia. Nós somos dotados de capacidade e de oportunidade de escolher, por isso somos nós que escolhemos ser conscientemente cruéis.
Precisamos aprender com os outros seres. Estar na natureza é como ir para dentro de uma escola e encontrarmos uma grande Mestra. É um triste desperdício de tempo e de dinheiro quando vamos para a natureza sem a postura humilde de aprendizado, de contemplação.
Contemplar a organização e as grandes obras das pequenas formigas;
Contemplar a força silenciosa do vento que, sem ser visto, muda tudo de lugar, às vezes suavemente, às vezes com força avassaladora, movendo o que estava estagnado;
Contemplar as águas que sustentam a vida das criaturas, que desenham paisagens e abrem caminhos entre rochas, montanhas e planícies;
Contemplar os mais diversos animais, tão diferentes e tão importantes para o ciclo da vida, alguns nas águas, outros na terra, outros levantando voo, com características e adaptações únicas para se manterem vivos e perpetuarem suas espécies;
Contemplar as plantas em suas variedades de cores, frutos e flores, que dão beleza, sombra e alimento;
Contemplar as plantas em suas variedades de cores, frutos e flores, que dão beleza, sombra e alimento;
Essa vida toda contemplamos quando conseguimos silenciar e olhar de verdade.
A natureza não é nossa. Ela também é nossa, ela também somos nós, mas a natureza não é só nossa, não é só da vida humana. Não é para ser perturbada, mas integrada, respeitada, protegida, cuidada.
Só conseguimos nos conectar de verdade com o todo, viver essa comunhão, quando fazemos silêncio, entendemos nosso lugar e nos dispomos a enxergar de verdade.
Se conseguirmos nos abrir a essa oportunidade com humidade, não ouviremos apenas os sons naturais e toda a beleza da vida que pulsa ao redor, mas conseguiremos ouvir, também, a vida e a beleza que pulsa dentro de nós.
Assim como acontece na natureza, perceberemos renascer em nós a capacidade, dada por Deus aos seres humanos de criar, de regenerar, de recomeçar, de adaptação, superação, crescimento, resiliência… de gerar a vida.
A partir de agora, escute esse convite da natureza, Mestra de vida: quando tiver a oportunidade de estar na natureza, diante da criação de Deus, lembre-se de estar entrando na casa de alguém, em área já habitada por outras vidas: entre respeitosamente, retire humildemente seus calçados, escute as vozes e melodias, os aprendizados e hábitos e colha os dons compartilhados, pois é um presente de Deus, uma troca que nos transforma em pessoas melhores.
Assim como as outras formas de orações e de trocas, nunca saia da natureza da mesma forma que chegou: saia melhor do que entrou, mais humilde, mais livre, mais leve, mais humano.
Quando for para a natureza retire os sapatos
Estarás entrando na casa de alguém.
Entre com humildade, peça licença
Viva a partilha com os moradores, respeitando seus hábitos.
Muito obrigada pela presença e pela leitura!